segunda-feira, 3 de junho de 2013

FRITZ ALT - parte II

Biografia - parte II
(clique aqui para ler a parte I)

O prédio atual da Sociedade Harmonia Lyra[1], tem esculpido em suas paredes, máscaras com coroas de louros feitas pelo artista, além de outros detalhes arquitetônicos. Certa vez, quando ia para uma noite de gala na Harmonia Lyra, por estar com a roupa suja de argila, "Ao ouvir dos porteiros que não poderia entrar sem gravata borboleta, foi até a sua casa e retornou à Lyra mais tarde - sem camisa e com uma gravata" (SCHWARZ, 2007).

Mascarões na fachada do Teatro Harmonia Lyra. Fotografia de Walter de Queiroz Guerreiro. Disponível em: http://www.mubevirtual.com.br/pt_br?Dados&area=busca&tipo=autor&autor=fritz%20alt

Segundo Guerreiro (2007), a primeira obra pública inaugurada no Brasil produzida por Alt foi realizada em 1925, um busto em bronze de Dona Francisca, que hoje se encontra na rua das Palmeiras, no Centro de Joinville. Esse busto foi encomendado em comemoração aos 75 anos da cidade pelo Dr. Marinho Lobo. 

O busto da Dona Francisca foi inaugurado em 9 de março de 1926, enquanto que o busto de Duque de Caxias foi inaugurado em 25 de agosto daquele mesmo ano. Mas, é provável que o gesso de Duque de Caxias antecedeu o bronze pelas dificuldades técnicas (GUERREIRO, 2007).

Busto de Dona Francisca. Foto de Cleber Gomes, extraída na reportagem "Busto Dona Francisca sofre ação de vândalos em Joinville". Disponível em notícia do Diário Catarinense: http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/noticia/2012/08/busto-dona-francisca-sofre-acao-de-vandalos-em-joinville-3848159.html.

Segundo o crítico de arte Walter de Queiroz Guerreiro (2007, p. 9) no busto de Dona Francisca "por um lado Fritz Alt obedece aos cânones clássicos, por outro adota uma síntese, introduzindo um ritmo em que as linhas contornam a figura, próximo ao Art Déco" (GUERREIRO, 2007, p. 9).

Em 1925 fica noivo de Léa Richlin, uma jovem de tradicional família joinvilense e frequenta a loja maçônica “Amizade Alemã ao Cruzeiro do Sul”. Assim, com o noivado e a vida em Joinville tomando rumo, passa a ver tudo com mais otimismo, e percebe que era uma época alegre e bela (HEINZELMANN, 1992).

Alt teve três filhos com Léa: Gehrardt Ludwig, Ingeborg Alice e Gisela Regina, “marcados pelo relacionamento complexo entre o amor e a boemia do artista” (GUERREIRO, 2007, p. 9). Muitas vezes suas atitudes o levavam  a excessos alcóolicos e “atitudes de confronto com as normas vigentes na cidade” (GUERREIRO, 2007, p. 9).

Fotografia de Fritz Alt. Autoria desconhecida. Disponível em: http://wp.clicrbs.com.br/anmemoria/2012/03/10/an-memoria-sabado-fritz-alt/?topo=84,2,,,,77

As longas ausências, a companhia com a bebida faziam com que muitas vezes o relacionamento com Léa estremecesse, sendo que Fritz certa vez confessou à amiga e discípula Edith Wetzel: “Eu também não queria ser casado comigo” (HEINZELMANN, 1992, p. 31). Heinzelmann (1992) conta que um certo dia Fritz saiu de casa para comprar a carne do dia seguinte mas, às dezessete horas, o Stammtisch chamou sua atenção para tomar uma cerveja e uma conversa – “no final da tarde do dia seguinte – em casa todos preocupados – Fritz lembrou da carne, esquecida e toda podre no selim da bicicleta” (HEINZELMANN, 1992, p. 31). 

Tinha temperamento inquieto e, por ser extrovertido, simpático e sincero, construiu um vasto círculo de amizades na década de 30. Tanto no seu ateliê quanto fora de casa tornou-se centro de debates culturais e formador de opiniões, pois tinha fascínio pela arte, religião e filosofia, “a ponto de copiar textos lidos, acrescentar ideias próprias e discuti-las” (GUERREIRO, 2007, p. 9). 

Com esses contatos, criou obras de arte funerária, projetando obras em granito e bronze, tradicional forma de sustento de escultores. Em 1936, Produziu algumas obras-primas para a EFA (Exposição de Flores e Artes), exposição anual de flores e trabalhos anuais, como “O Friorento” e “Wieland, o Ferreiro”. 

"O Friorento", imagem extraída da reportagem "Verbete de bronze", de Rodrigo Schwarz. Jornal A Notícia de 25 de julho de 2007. Disponível em: http://www.an.com.br/anexo/2007/jul/25/0ane.jsp.

Além dos trabalhos em escultura, Fritz Alt fazia o planejamento dos jardins da EFA. Fritz entregava suas esculturas sempre de última hora e, “enquanto os demais iam para casa colocar uma roupa social, Fritz ficava, esquecido da hora entre uma cerveja e outra, e assim participava das solenidades de abertura” (HEINZELMANN, 1992, p. 28).

Dentre algumas obras em locais públicos de Joinville, destaca-se o “Monumento ao Imigrante”, instalado em 1951 na praça da Bandeira no Centro de Joinville em comemoração ao centenário de Joinville. Neste monumento, há

um imigrante, empunhando um machado, e um nativo, com uma espingarda. Na época da produção da escultura, Fritz comentou com um amigo: ‘O caboclo diz o seguinte para o imigrante alemão: a terra está aqui para ser usada, faça bom uso e seja bem-vindo, mas não esqueça de que estou armado’ (SCHWARZ, 2007).

Monumento do Imigrante, foto de Rogério da Silva, extraída da reportagem "Precursor das artes plásticas", de Rafaela Mazzaro, do  jornal A Notícia de 13 de maio de 2010. Disponível em: http://www.clicrbs.com.br/anoticia/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a2901914.xml&template=4187.dwt&edition=14682&section=1186

Esse Monumento surgiu a partir de Rolf Wetzel, idealizador da Sociedade Amigos de Joinville, em 1947, onde “Fritz Alt firma contrato e cria a obra que sintetiza as origens da cidade e irá consagrá-lo junto à população” (GUERREIRO, 2007, p. 10). Erguido próximo ao Marco Zero da cidade, na praça da Bandeira, perto do local onde os primeiros imigrantes desembarcaram, próximo ao Rio Cachoeira (HEINZELMANN, 1992).

Monumento aos Imigrantes, de Fritz Alt. Foto de Juliana Rossi.

De acordo com a documentação da época, “o projeto inicial previa dois grandes triângulos em granito com altos-relevos sobre o homem do campo e o da cidade, possivelmente em momentos históricos diversos” (GUERREIRO, 2007, p. 23). 

Como é provável que esses triângulos sairiam com um alto custo e cerca de cinco anos de serviço (HEINZELMANN, 1992), o projeto foi inviabilizado, fazendo com que Fritz Alt adotasse uma construção arquitetônica neoclássica, pois “dispõe o grupo de personagens em bronze em torno de pedestal de granito, que pela dramaticidade dos gestos expressa mensagem do romantismo e de um ideal: a instalação na nova terra” (GUERREIRO, 2007, p. 10). Segundo Guerreiro (2007), os dois grupos representam o passado e o futuro dos imigrantes, as  gerações e a construção da família, deixando à tona  imagem do passado-presente.

Detalhe do Monumento ao Imigrante, de Fritz Alt. Foto de Juliana Rossi.

Através dos dois homens empunhando a arma de fogo e o machado, Alt representou aqui a tomada de terra e o desbravamento. 
A mulher com seus pertences num baú e os dois filhos, “expressam a construção da família e das gerações futuras” (GUERREIRO, 2007, p. 23) e “futuro da nova pátria, a geração seguinte” (HEINZELMANN, 1992, p. 93). O monumento em suas laterais possui dois relevos que representam a chegada através do oceano, um com a Barca Colon na baía de São Francisco do Sul, com a vista da cidade, e outro que simboliza a penetração terra-adentro pela imigrante, através da subida da Serra Dona Francisca com carroças (HEINZELMANN, 1992; GUERREIRO, 2007).

Detalhe do Monumento ao Imigrante, de Fritz Alt. Foto de Juliana Rossi.

Alt gostava muito de ouvir música clássica, o que o levou a criar algumas esculturas de seus autores favoritos: Mozart (da qual existem apenas referências), Wagner, Chopin e Beethoven. Beethoven foi modelado numa postura romântica, “como se fora vivo, a expressão austera e turbulenta das paixões da vida, a cabeleira revolta captada num átimo do tempo” (GUERREIRO, 2007, p. 10).

O escultor revela uma certa obsessão pela transitoriedade da existência, pois foi influenciado pelas leituras de Nietzsche, por sua experiência com a Primeira Guerra Mundial e por sua própria existência. É nesse contexto que cria a máscara “A Vida e a Morte”, simbolizando a metamorfose, “a revelação esotérica do homem, que passa pela iniciação na qual Cristo é o símbolo supremo da transformação” (GUERREIRO, 2007, p. 10).

Vida e Morte, de Fritz Alt. Fotografia copiada do livro "Indicador Catarinense das Artes Plásticas", de Harry Laus e Nancy Therezinha Bortolin (2010). 

Na década de 50, realizou muitos monumentos públicos, como os de João Colin, no final da Rua João Colin em Joinville, Lauro Müller (em Florianópolis), Marcílio Dias (Mafra), Emilio Carlos Jordan (Jaraguá do Sul), Orestes Guimarães (São Francisco do Sul), Vidal Ramos (Rio do Sul) e Ermembergo Pelizetti (Ibirama). É também nesse período que irá produzir dois painéis em mosaico, no SESI e na Biblioteca Pública Rolf Colin. 

Monumento a João Colin, de Fritz Alt. Fotografia de Walter de Queiroz Guerreiro. Disponível em: http://www.mubevirtual.com.br/pt_br?Dados&area=busca&tipo=autor&autor=fritz%20alt

No mosaico do prédio do SESI – Serviço Social da Indústria, cerca de 58.015 pastilhas de vidro compõem a obra (5 m por 4,5m). Em 2006, foram enviadas uma a uma em Florianópolis para processo de restauração para enfim serem realocadas em nova sede do SESI. Em Florianópolis, todos os componentes do mosaico passaram por uma limpeza química, removendo a sujeira proveniente de mais de meio século de exposição aos gases emitidos pelos carros que trafegam pela rua Ministro Calógeras (SCHWARZ, 2006).

Painel de mosaico do Sesi, de Fritz Alt. 1949. Dimensões de 500 x 450 cm. Rua Ministro Calógeras, 195. Foto extraída do site: http://mosaicosdobrasil.tripod.com/id121.html

Em 1955 foi feito o mosaico da Biblioteca Pública Municipal Rolf Colin que, em sua parede frontal, tem proporções de 10 por 6,5 m. Nesse mosaico, é traçada uma evolução permanente do homem, “como uma linha constante ascendente que remete a Hegel e seus estágios de desenvolvimento do espírito” (GUERREIRO, 2007, p. 16). Há alegorias ao trabalho manual que caminha para o intelectual, “mostrando a evolução íntima do homem, do ser inconsciente ao onisciente” (GUERREIRO, 2007, p. 16).
Painel de mosaicos da Biblioteca Pública de Joinville, de Fritz Alt.. Disponivel em: http://mosaicosdobrasil.tripod.com/id121.html

Além de ser um escultor dedicado a obras tridimensionais, trabalhos em cimento, estuque nas artes decorativas e relevos, a criação artística de Alt estende-se a outras linguagens que abrangem bicos-de-pena, desenhos, aquarela e pintura a óleo (GUERREIRO, 2007), mesmo que grande parte de sua produção não foi localizada.

Em 2008 tornou-se destaque no Dicionário da Escultura no Brasil, depois de 40 anos de sua morte. Redigida por José Roberto Teixeira Leite, o artista foi incluído a partir do crítico e autor do livro “Fritz Alt: vontade do desejo”, Walter de Queiroz Guerreiro, que enviou o livro a José Roberto. Silvia Heinzelmann também escreveu uma biografia sobre o escultor, em 1992.

Imagem de Fritz ALt trabalhando no busto de Lucy Paes, retirada da notícia"Verbete de bronze", de Rodrigo Schwarz. Jornal A Notícia de 25 de julho de 2007. Disponível em: http://www.an.com.br/anexo/2007/jul/25/0ane.jsp

Alt faleceu em 1968, no dia 15 de março, quase em frente ao Monumento do Imigrante, “[...] enquanto percorria o trajeto de casa com sua inseparável bicicleta” (MAZZARO, 2010), dois dias após a inauguração da Escola de Artes que leva seu nome, anexa à Casa da Cultura. Neste dia,
[...] irá proferir, a contragosto, uma vez que não gostava de atuar como professor, uma palestra inaugural sobre história da arte. Fatalidade ou emoção, no dia seguinte após discussão com seu vizinho, o historiador Carlos Ficker, por uma questão de divisas de terras, sobre infarto do miocárdio com parada cardiorrespiratória (GUERREIRO, 2007, p. 11).

Em seu enterro refletiu-se o ecletismo de seus interesses, pois havia representantes da Maçonaria, do Exército, da Igreja, do Exército, inúmeros amigos inclusive dos segmentos políticos e culturais (HEINZELMANN, 1992).

Em 10 de dezembro de 2012, foi disponibilizado digitalmente o acervo do museu. O endereço para consultar o acervo é http://museu.univille.br:8080/consultamuseu/.

Pietá de Fritz Alt. Foto: Lysandro Lima. Disponível em: http://www.sctur.com.br/joinville/museu_fritz_alt.asp

Teve como discípulo Mário Avancini e, “juntamente com Eugênio Colin e Victor Kursancew é considerado pioneiro das artes plásticas na cidade e esta é a sua principal importância”, afirma Francisco Cardoso, no artigo “O Famoso Desconhecido Fritz Alt e sua Casa”, publicado em 17 de agosto de 1988 no Jornal “A Notícia” (HEINZELMANN, 1992). Fritz “não tinha apego material às coisas. Gostava de arte, gostava de música, gostava de beber e conversar com os amigos, e nisso se resumia o seu universo” (VIEIRA, 1989 apud HEINZELMANN, 1992, p. 102).

(clique aqui para ler a parte I)

Conheça mais sobre o artista: http://artejlle.blogspot.com.br/p/fritz-alt.html



[1] A Sociedade Harmonia Lyra é um local tradicional de eventos culturais, sociais e artísticos da sociedade joinvilense. Originada da fusão entre a Sociedade Harmonia (antiga Harmonie Gesellschaft) e a Sociedade Musical Lyra, foi fundada em 31 de maio de 1858. Atualmente, conta com um salão de festas para 650 pessoas, espaço para shows com capacidade para 140 lugares e um restaurante com 50 lugares. Esses espaços são usados também para bailes, formaturas, casamentos e shows.


Referências

FRITZ Alt, o artista ancestral. Jornal A Notícia, Joinville, 9 mar. 2011. Anexo, Caderno de aniversário do A Notícia, p. 30.

GUERREIRO, Walter de Queiroz. Fritz Alt: a vontade do desejo. Joinville: Editora Letra´dágua, 2007. 1ª edição.

HEINZELMANN, Silvia. Fritz Alt. Joinville: Fundação Cultural, 1991.

MAZZARO, Rafaela. Percursos das artes plásticas. Jornal A Notícia, Joinville, 13 mai. 2010. Anexo, p. 1.

SCHWARZ, Rodrigo. Verbete de bronze. Jornal A Notícia, Joinville, 25 jul. 2007. Anexo, p. 1.

______. Vida nova ao trabalhador: Restauração de mosaico recupera obra monumental de Fritz Alt, baluarte das artes plásticas de Joinville. Jornal A Notícia, Joinville, 15 out. 2006. Anexo, p. 2.


TERRAS da princesa brasileira abrigam arte musiva do alemão Fritz Alt. Disponível em: http://mosaicosdobrasil.tripod.com/id121.html. Acesso: 15 jan. 2013.

Um comentário:

  1. A imagem mencionada como busto de Lucy Paes está incorreta, o busto é de Emmy Kröner, e está em minha residência. A criança ao lado é meu pai! Inclusive, a foto original consta no álbum de fotos de criança dele. Gostaria de doar a obra ao museu Fritz Alt mas soube que está em reforma, meu e-mail para contato alexandre@kroner.com.br

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